Dois anos após tragédia, Remar para o Futuro retoma protagonismo e mantém vivo o legado das vítimas | Zona Sul
20/10/2026 04:00 · Pelotas/RS
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Enquanto aguarda sentença sobre o acidente, projeto de Pelotas volta a se destacar no remo, com conquistas estaduais e nacionais e atletas convocados para a Seleção Brasileira
Há exatos dois anos, o Remar para o Futuro precisou encontrar forças para renascer em meio ao luto. Após perder oito integrantes em um acidente no Paraná, durante o retorno do Campeonato Brasileiro de Remo, o projeto de Pelotas enfrentou o desafio de reconstruir sua rotina, retomar o protagonismo nas águas e manter viva a memória daqueles que partiram.
Naquele 20 de outubro de 2024, o sorriso de um projeto que havia conquistado sete medalhas no Campeonato Brasileiro de Remo se transformou em lágrimas. O acidente tirou a vida de sete jovens, do treinador Oguener Tissot e do motorista Ricardo Leal da Cunha, deixando uma cidade inteira em luto.
Agora, dois anos depois, o projeto superou parte das dificuldades iniciais, em um ano chamado de transição, e voltou a se destacar no cenário esportivo. Entre as conquistas deste ano estão títulos nacionais e convocações para a Seleção Brasileira. A trajetória de reconstrução, no entanto, segue acompanhada pela ausência das vítimas e pela expectativa de uma decisão judicial sobre o acidente.
Ano de direcionamento e conquistas
Dentro das raias, aos poucos, os resultados esportivos conquistados no auge, vivido antes da tragédia, voltam a aparecer, mostrando que o projeto está remando para o caminho certo.
— Estamos entendendo de uma forma mais concreta e objetiva os nossos potenciais, no sentido de identificar quais são os atletas que a gente pode investir do ponto de vista competitivo e quais os níveis competitivos que eles podem nos entregar e a gente pode exigir deles. Então, 2026 tem sido um ano de direcionamento. E o ano que vem é um ano de competição, de realização — diz o coordenador do projeto, Fabrício Boscolo.
Atletas do projeto conquistaram medalhas em competições estaduais e nacionais, com destaque para os resultados no Campeonato Gaúcho e na Regata Gaúcha de Remo Indoor. Nesta última, a equipe somou 20 medalhas, entre ouro, prata e bronze.
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A formação de atletas também voltou a projetar Pelotas internacionalmente. Piedro Tuchtenhagen e Mariana Macedo, integrantes da primeira geração do projeto, foram convocados para o Campeonato Mundial de Remo, em Amsterdã, na Holanda. Tuchtenhagen alcançou a sexta colocação na final no double skiff peso leve, resultado inédito na história do Remar. Em setembro, três atletas formados na iniciativa — Ana Julia Ferreira, Mariana Macedo e Piedro Tuchtenhagen — foram convocados para representar o Brasil nos Jogos Sul-Americanos.
No mesmo mês, a equipe conquistou dois títulos no Campeonato Brasileiro de Jovens Talentos, disputado na raia olímpica da Universidade de São Paulo. Kamilly de Freitas venceu duas provas, e o projeto ainda garantiu uma medalha de prata e uma de bronze, encerrando a competição na quarta colocação geral.
A última conquista veio no domingo (18), no Campeonato Brasileiro de Barcos Longos, competição da qual a delegação voltava de viagem no acidente de 2024. Neste ano, a equipe voltou para casa com 15 medalhas — uma de ouro, duas de prata e 12 de bronze.
Fora das águas, o projeto também ganhou diversos reconhecimentos. O principal deles foi a Medalha Rei Pelé, considerada a maior honraria do esporte nacional. A condecoração é concedida pela Câmara dos Deputados a pessoas e instituições que contribuem para o desenvolvimento do esporte e ampliam o acesso à prática esportiva. A honraria reconheceu uma década de trabalho voltado à formação esportiva e cidadã de jovens da rede pública de ensino, além da contribuição do projeto para o esporte brasileiro.
Competição estadual homenageia vítima de tragédia do Remar para o Futuro
O legado do Remar para o Futuro está diretamente ligado à história de Oguener Tissot, um dos fundadores do projeto e uma das principais referências do remo nacional na captação e no desenvolvimento de jovens atletas. Em 2026, duas homenagens eternizaram a contribuição do ex-treinador para a modalidade.
A primeira competição estadual de remo exclusiva para as categorias de base passou a levar o nome de Oguener Tissot. A iniciativa da Federação Gaúcha de Remo (Remosul) reconhece a importância do treinador para a formação de novos atletas.
Além disso, Pelotas instituiu o Dia Municipal do Remo, celebrado em 12 de outubro, data escolhida em alusão ao aniversário de Tissot. A comemoração ocorreu pela primeira vez neste ano.
Como está o projeto
Dois anos depois da tragédia, o projeto mantém uma rotina semelhante à retomada do ano anterior. Cerca de 30 jovens de escolas públicas entre 12 e 18 anos participam das atividades de segunda a sábado, no turno inverso ao escolar, às margens do Arroio Pelotas. Em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a prefeitura e o Centro Português 1º de Dezembro, o Remar organiza os participantes em três grupos: aspirantes, pré-equipe e time principal.
Os aspirantes são os iniciantes, que ainda aprendem o gesto técnico do remo; a pré-equipe é composta por quem já domina parte da técnica e avança no desenvolvimento; e o time principal reúne os jovens mais experientes, que representam o projeto em competições. O avanço entre as categorias é gradual e depende do amadurecimento individual de cada aluno.
Além disso, outros dez atletas também fazem parte do plantel.
A gente tem também os atletas que são pivôs, que são acima de 18 anos e treinam e competem por Pelotas ou treinam em Pelotas e competem por outros clubes, que são atletas Sub-23 e atletas adultos
Coordenador do projeto
Neste ano, o projeto ganhou um reforço de peso. Evelen Cardoso, de 23 anos, retornou ao Remar trazendo na bagagem um currículo com diversas conquistas. A atleta é formada no clube e acumula experiências no Clube de Regatas do Flamengo e no Grêmio Náutico União.
Por outro lado, em janeiro, o Remar perdeu uma de suas principais figuras. João Pedro Milgarejo, único sobrevivente do acidente entre os integrantes que estavam na van, deixou a rotina diária do projeto para seguir a carreira no Grêmio Náutico União, em Porto Alegre.
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A manutenção das atividades depende de uma rede de parcerias e apoios. O projeto conta com recursos do Pró-Esporte RS, programa de incentivo ao esporte do governo estadual, além do apoio de empresas locais.
Os recursos contribuem para a manutenção da estrutura e a participação em competições, mas não eliminam todas as dificuldades financeiras. Despesas como transporte, alimentação, inscrições em campeonatos e manutenção dos equipamentos continuam exigindo mobilização de apoiadores e arrecadação de recursos.
No sábado (24), a partir das 10h, o Remar para o Futuro fará uma homenagem às vítimas. O evento será na sede do Centro Português, localizado na Rua Cidade de Aveiros, 500.
Como foi o acidente
Na noite de 20 de outubro de 2024, a delegação do Remar para o Futuro retornava a Pelotas após disputar o Campeonato Brasileiro de Remo, em São Paulo. Representando o Clube Centro Português 1º de Dezembro, a equipe havia conquistado sete medalhas e terminado na sexta colocação geral entre 30 participantes.
A viagem de volta foi interrompida na BR-376, nas proximidades de Guaratuba, no Paraná. Um caminhão colidiu com a van que transportava integrantes do projeto. O acidente provocou a morte de nove pessoas: os atletas Angel Souto Vidal, de 16 anos; Helen Belony, de 20; Henri Fontoura Guimarães, de 17; João Pedro Kerchiner da Silva, de 17; Nicole da Cruz, de 15; Samuel Benites Lopes, de 15; e Vitor Fernandes Camargo, de 17 anos. Também morreram o treinador Oguener Tissot, de 43 anos, e o motorista da van, Ricardo Leal da Cunha, de 52.
“Não vai me causar paz”: processo aguarda sentença
O motorista do caminhão que causou a colisão foi indiciado por homicídio culposo na direção de veículo automotor, conforme o artigo 302 do Código de Trânsito Brasileiro. A pena pode chegar a até quatro anos de prisão, além da suspensão ou proibição de obter a habilitação para dirigir. O proprietário do caminhão também foi indiciado por homicídio culposo.
O processo criminal tramita na Vara Criminal de Guaratuba, vinculada ao Tribunal de Justiça do Paraná, e está próximo de uma decisão em primeira instância.
O prazo para a apresentação das alegações finais já transcorreu para todos os envolvidos no processo. Com essa etapa encerrada, resta a sentença da juíza Marisa de Freitas, que deverá analisar as provas e decidir sobre a responsabilidade dos réus. A decisão ainda poderá ser questionada por meio dos recursos previstos em lei.
Apesar disso, Boscolo diz que uma eventual condenação dos envolvidos não irá trazer alívio para ele.
— Não vai me causar paz, não vai me trazer tranquilidade, não vou ficar com a sensação de justiça feita. Eu simplesmente lamento todos os dias pelo que aconteceu [...] mas certamente para os familiares das vítimas será um momento de reflexão, que traga algum tipo de tranquilidade e de reconhecimento de culpa pelo menos de alguns dos atores — afirma.
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Publicado originalmente por GZH · Pelotas. Ler na fonte original ↗