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Anora estreia na Netflix: filme provocou choro, ódio e desprezo no Brasil | GZH

GZH · Porto Alegre

21/10/2026 00:01 · Porto Alegre/RS

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Anora estreia na Netflix: filme provocou choro, ódio e desprezo no Brasil | GZH

A partir desta sexta-feira (23), fica disponível na plataforma o grande vencedor do Oscar de 2025: "Anora", de Sean Baker

Estreia nesta sexta-feira (23) na Netflix o filme que provocou choro, ódio e desprezo no Brasil: Anora (2024), grande vencedor do Oscar no ano passado.

O título foi premiado pela Academia de Hollywood nas categorias de melhor filme, direção (Sean Baker), atriz (Mikey Madison), roteiro original e edição (ambos também assinados por Baker).

A entrega da estatueta dourada para Madison detonou a revolta dos brasileiros que torciam fervorosamente pela vitória de Fernanda Torres, a protagonista de Ainda Estou Aqui (2024), ganhador do troféu de melhor filme internacional. Se fosse para perder, tinha de ser para Demi Moore, de A Substância (2024).

Nas redes sociais, usuários acusaram a Academia de Hollywood de etarismo, o que reforçaria a crítica feita pela cineasta francesa Coralie Fargeat em A Substância. No dia do Oscar, Madison estava com 25 anos, Moore, com 62, e Torres, com 59.

Também houve comparação com o Oscar de 1999, quando Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres e então com 69 anos, também perdeu na mesma categoria para Gwyneth Paltrow, 26. A brasileira concorria pelo papel em Central do Brasil (1998), enquanto a estadunidense venceu pela atuação em Shakespeare Apaixonado (1998).

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A indignação dos fãs lotou de comentários negativos as publicações da Academia de Hollywood no Instagram. "Parabéns por terem comprovado a teoria de A Substância", escreveu uma usuária. "Ver o etarismo, muito bem abordado em A Substância, ser confirmado através do Oscar de melhor atriz foi revoltante", registrou outra.

"Vocês tiraram o prêmio da mesma família duas vezes, tá de marcação meu chapa?", questionou uma brasileira. "Você roubou uma Fernanda e 25 anos depois roubou a outra! Nunca vou te perdoar!", escreveu outra. Também houve boas piadas: "Não ganhou a mãe, não ganhou a filha. Ganhou Anora".

Não faltaram críticas a Anora e ataques a Mikey Madison. Houve quem chamasse Anora de "uma comédia soft porn de gosto duvidoso" e com um roteiro "tosco". "Se eu quisesse assistir um filme de pu, eu assistia Bruna Surfistinha. Vai se fud, Anora", escreveu um usuário do X (o antigo Twitter). "Gretchen atua melhor que você", postou uma pessoa no Instagram. "Enfim o teste do sofá teve retorno", disse alguém.

Diante de tantos xingamentos, a própria Fernanda Torres resolveu se manifestar. Durante uma entrevista coletiva posterior ao Oscar, a atriz afirmou:

— O Brasil é muito apaixonado. Eu queria pedir pra só mandarem amor para a (Mikey) Madison. Por favor. Mandem só o amor. Aquela mulher é muito legal. Só isso que eu queria pedir. (...) Eu sinto Ainda Estou Aqui como primo do Anora. Anora começa como comédia romântica, mas tem uma reviravolta que faz você pensar na dor, no amor, na busca de afeto. E o nosso filme é sobre afeto.

Diretor de "Anora" fez história no Oscar

Sean Baker fez história no Oscar 2025: tornou-se o primeiro cineasta a levar para casa quatro estatuetas douradas pelo mesmo filme. Ganhou o principal prêmio, como um dos produtores de Anora (2024), o de melhor direção, o de melhor roteiro original e o de melhor edição.

No Oscar de 2020, o cineasta sul-coreano Bong Joon-ho também subiu quatro vezes ao palco, quando Parasita (2019) venceu os prêmios de melhor filme, direção, roteiro original e longa internacional, mas o troféu dessa categoria fica com o país ganhador, não com o diretor.

Anora foi o filme mais premiado da temporada 2024/2025. A lista inclui a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os troféus de melhor filme pela Associação dos Produtores dos EUA (PGA) e de melhor direção pelo Sindicato dos Diretores dos EUA (DGA.

Em cada discurso na cerimônia do Oscar, Baker destacou um aspecto de seu trabalho. Ao receber o prêmio de roteiro original, por exemplo, homenageou os e as profissionais do sexo. Ao ganhar a categoria de direção, defendeu a importância da sala de cinema na era do streaming:

— Em uma época em que o mundo pode parecer muito dividido, (ir ao cinema) é mais importante do que nunca. É uma experiência comunitária que você simplesmente não tem em casa. E, agora, a experiência de ir ao cinema está ameaçada. Os cineastas continuam fazendo filmes para a tela grande. Distribuidores, por favor, concentrem-se primeiro e principalmente nos lançamentos de seus filmes nos cinemas.

Na sua última manifestação, Baker enalteceu o cinema realizado fora dos grandes estúdios de Hollywood:

— Quero agradecer à Academia por reconhecer um filme verdadeiramente independente. Este filme é feito de sangue, suor e lágrimas de incríveis artistas independentes.

Sean Baker e os marginalizados

Mistura de comédia romântica tresloucada e drama amargo sobre o chamado sonho americano, Anora tem como personagens principais uma prostituta nova-iorquina e um jovem milionário russo. É o oitavo longa-metragem de Baker, estadunidense de 55 anos que é um dos nomes do cinema independente estadunidense mais adorados pela crítica — mas isso não quer dizer que seus filmes sejam pouco acessíveis pelo grande público.

Na sua obra, Baker imprime um olhar humanizado e caloroso para os marginalizados, como moradores da periferia, imigrantes ilegais e trabalhadores do sexo. Em nome do realismo e do naturalismo, as cenas de transa são cruas, despudoradas, e costumeiramente esses tipos são vividos por atores desconhecidos ou amadores. O elenco de personagens convida a um comentário crítico, mas com senso de humor, sobre o contexto sociopolítico dos Estados Unidos.

O título que fez Baker despontar é Tangerina (2015). Rodado na Califórnia com três smartphones iPhone 5S, acompanha uma prostituta transexual, Sin-Dee Rella, que sai da prisão e descobre que o namorado e cafetão está de romance com uma mulher cisgênero.

Seu filme seguinte, Projeto Flórida (2017), mostra a vida de quem mora no subúrbio de Orlando, na Flórida, no caminho para o parque da Disney, em motéis de beira de estrada que parecem os velhos conjuntos habitacionais aqui do Brasil e que nos quais se amontoam famílias, muitas delas expulsas de suas casas por causa da crise hipotecária de 2007 nos EUA. No papel do gerente do motel Magic Castle, Willem Dafoe disputou o Oscar de ator coadjuvante.

Red Rocket (2021) é sobre um ator pornô que, por causa da sua decadência em Los Angeles, volta para sua pequena cidade natal no Texas, onde vai tentar se aprumar para, quem sabe, recuperar os tempos de glória. A época em que se passa o filme (2016, ano da primeira eleição de Donald Trump à presidência dos EUA), a personalidade do protagonista e o cenário da trama permitem refletir sobre a ascensão política do empresário midiático que acabou de tomar posse para um segundo mandato na Casa Branca.

Qual é a trama de "Anora"?

Em Anora, Sean Baker leva a ação para Nova York — mais precisamente para o bairro do Brooklyn —, com uma esticadinha em Las Vegas. Lá, encena uma história que acena ao clássico conto de fadas Cinderela e ao filme Uma Linda Mulher (1990), mas na ótica peculiar do cineasta.

Sua personagem principal é Ani, apelido pelo qual prefere ser chamada a stripper e garota de programa interpretada por Mikey Madison, hoje com 26 anos. Depois de fazer papéis menores em Era uma Vez em... Hollywood (2019) e em Pânico (2022), a atriz se credencia como uma nova estrela graças a seu desempenho em Anora. Madison atinge um raro equilíbrio: sabemos que ali está uma artista, mas também conseguimos enxergar em Ani uma pessoa real, com autenticidade, sensualidade, potestade, vulnerabilidade e até um tanto de insanidade. Impetuosa mas afetuosa, ela é o motor do filme.

A montagem assinada pelo próprio Sean Baker é muito eficiente em ilustrar a rotina exaustiva de Ani, que pula de um cliente ao outro na boate, com o máximo de profissionalismo. Certa noite, o chefe apresenta a ela Ivan Zakharov, o Vanya, 21 anos, filho de um oligarca russo. Encarnado por Mark Eydelshteyn, o personagem vive na farra, bebendo com a turma de amigos ou jogando videogame na sua mansão.

O que começa como, ora, uma transação comercial vai, pouco a pouco, evoluindo para algo que podemos chamar de romance juvenil, com toda sua energia e sua inconsequência. Até que, em meio a uma brincadeira, os dois decidem dar um passo mais sério: um casamento em Las Vegas, que daria o green card para Vanya — um modo de evitar seu retorno à Rússia, onde teria de trabalhar para seu pai — e um anel de diamantes "com pelo menos três quilates" para Ani.

O que acontece daí em diante é absolutamente previsível, embora muitos colegas de imprensa enalteçam como uma revirada disruptiva. Eu antevi praticamente todos os rumos tomados, tanto os cômicos quanto os dramáticos, o que intensificou a percepção — essa, sim, compartilhada com vários outros jornalistas — de que o filme é mais longo do que o necessário (são duas horas e 19 minutos).

Para o meu gosto, falta também um investimento maior no subtexto: entende-se a crítica de Sean Baker à sociedade capitalista que fabrica sonhos coloridos para depois destrui-los, um universo onde as tentativas de ascensão esbarram no regramento não escrito da implacável exclusão social. E é evidente que Ani representa a resistência e o enfrentamento à masculinidade dominadora e exploradora (embora praticada por homens patéticos).

Mas essas ideias ficam por demais escondidas sob a superfície de sexo, tensão, comicidade, caos e violência que aproxima Anora de alguns filmes dos irmãos Coen (Fargo, Onde os Fracos Não Têm Vez) e da obra dos irmãos Safdie (Bom Comportamento, Joias Brutas).

Dito isso, também vale ressaltar a presença de coadjuvantes marcantes e a existência de momentos antológicos. Karren Karagulian saboreia cada diálogo de escárnio ou ameaça do sujeito que abandona o batizado do próprio afilhado para tentar resolver o imbróglio do casamento de Ani e Vanya. E a câmera se enamora de Yura Borisov (ator de Compartimento Nº 6) desde que surge em cena como um capanga de poucas palavras.

Toda a sequência em que a realidade bate à porta de Ani é exemplar na sua mescla de humor, ação e desmoronamento emocional — não só da protagonista, mas também do espectador. E a célebre cena do carro é um primor na sua mistura silenciosa de fúria com resignação, de romantismo com amargura.

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Publicado originalmente por GZH · Porto Alegre. Ler na fonte original ↗

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