A cadeira vazia | Passo Fundo
02/11/2026 12:22 · Passo Fundo/RS
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Depois do adeus, nada te prepara para um móvel tão cruel e sorrateiro
Eu lembro quando a morte não significava nada para mim. Sabia que existia, mas nunca tinha deparado com ela frente a frente. Foi então que aconteceu: meu pai descobriu um câncer e morreu nove meses depois, aos 56 anos. De lá para cá, entendi que não há objeto mais cortante que a temida cadeira vazia.
É porque nada te prepara para a cadeira vazia. Perversa, é o aviso sombrio de tudo que ficou para trás. Quando a vi pela primeira vez foi como levar um golpe: estávamos em cinco na mesa onde antes sentavam seis. Era o lembrete concreto da ausência sem fim.
A cadeira vazia é brutal porque traz para a realidade algo que não havia sido digerido no velório ou no enterro. Até então, estamos imersos no que tem-que-fazer: escolher o caixão, abraçar quem chega, viver aquele rito. É depois, quando se chega em casa, que a cadeira vazia mostra suas garras.
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Ela é sorrateira e cruel. Faz questão de mostrar o vazio deixado no banco do carro, o canto do sofá, o lugar à mesa, o lado da cama. Implacável, esmagadora e sufocante. Foi isso que me deu dimensão daquilo que chamamos de luto. É um vazio gigante e difícil de mensurar, mas que paradoxalmente cabe perfeitamente em... uma cadeira vazia. Um verdadeiro looping de reticências.
A cadeira vazia lembra quão pequenos somos e quão insignificantes podem ser as nossas preocupações cotidianas. Mas também mostra como somos grandes. Grandes na capacidade de amar mesmo depois da despedida, quando passamos a conjugar os verbos sobre daquela pessoa no passado — ele era generoso, fazia piadas, vivia inventando moda.
É engraçado porque a cadeira vazia começa a ganhar outro significado à medida que o tempo passa. Quase dois anos depois da partida, tornou-se motivo para voltar àquilo que vivemos juntos: lembra quando o pai cuidava da gente enquanto a mãe ia dar aula? E aquela brincadeira que ele fazia?
A cadeira vazia vai ficando mais suportável e, de uma forma estranha, até ajuda a suportar a saudade. Por que, se está vazia agora, é porque alguém muito especial sentou ali. E assim, pouco a pouco, muito lentamente, vai voltando a virar móvel, mas com novos contornos, talvez um ar mais fresco, agora sob as cores da memória.
Em homenagem ao meu querido e amado pai, Everaldo Possa. Para comentários, dúvidas e sugestões de pauta entre em contato através do e-mail [email protected] ou WhatsApp (54) 99263-0964.
Publicado originalmente por GZH · Passo Fundo. Ler na fonte original ↗